Aos Alunos...
   Nosso combinado era eu fazer um texto para lermos no último dia de aula. Então iniciei minha árdua tarefa... digo árdua por saber ser tão complexa a missão de escrever sentimentos diversos, em tão pouco tempo.

 Pensei em começar elogiando-os, porém, óbvio que não encontraria expressões e termos suficientes para tal. A falta das palavras se fez presente. Verdade mesmo é que eu queria encontrar palavras para nomear o que estou sentindo agora neste momento, mas queria palavras saudáveis e não palavras doentes, porque as doentes são cheias de sombras e mistérios, não sabemos qual o próximo passo que a doença irá tomar, então ficamos à mercê e não era esse meu desejo, mas sim usar as saudáveis, curadas, bem resolvidas, cheias de sonhos. Afinal, uma pessoa compõe parte de sua vida com sonhos.
  Inútil, as palavras não se achegaram a mim...

  Talvez, se eu tivesse o poder de me transformar em uma bruxa, conseguiria enfeitiçar as palavras a ponto de torná-las vivas na alma e no coração de vocês.... Outra tentativa frustrada...

  Fui buscar auxílio dessa vez no Dicionário Houaiss, onde encontramos na etimologia da palavra “texto”, as seguintes raízes para este termo: “lat. textus, us': narrativa, exposição', do v.lat. téxo,is,xùi,xtum,ère 'tecer, fazer tecido, entrançar, entrelaçar; construir sobrepondo ou entrelaçando',”. Temos, portanto, uma estreita relação entre as palavras “texto” e “tecido”.

  Buscando a palavra “tecido” no mesmo dicionário, temos como definição “aquele produto feito de mil fios diferentes, trançados com magia e maestria num tear”.

  Tentando fazer uma analogia, se chamarmos de tessitura à fase que passamos juntos, à travessia que fizemos, simulando aqui uma breve comparação, posso dizer que nesse tecido, os fios discursivos se entrelaçaram muito, quantas vidas não se cruzaram com a minha, quantos sonhos não foram costurados e quantos não foram desfeitos, juntos aos meus? Essa travessia carrega as marcas de um tempo em que surpresas nos apareceram como que por encanto, e também ledos enganos estiveram presentes. Esse coser (com todas as suas linhas) nos envolveu tanto ao ponto de ser “o” evento. E, sendo evento, sua existência deve ser louvada e agradecida por quem o viveu.

  Chegamos ao outro lado intensos, vivos, depois de termos morrido por diversas vezes. Tivemos os dias bons, as noites tranquilas, mas também tempestades de hora ou outra, que nem conseguiram ofuscar nossa chegada, mas foram importantes para nos unir ainda mais.

  O que importa é que chegamos, mas meu ponto de partida para essa aventura foram vocês... razão para meu ser-sendo professora e fontes admiráveis de possibilidades de ser-no-mundo.

  Os afetos e as afetações que se articularam nesses espaços externos e internos de nossa sala de aula, trouxeram um ressignificado para mim, pois convivi com pessoas que me emocionaram pelos simples gestos de comoção que tiveram comigo, outras pela beleza e leveza de caráter. Convivi com pessoas cujo coração não têm medida, pessoas que são diferentes, mas só pelo fato de me observarem, já sabiam das coisas antes da hora. Convivi com pessoas que não sabem ler ou escrever nas normas cultas de nossa sociedade, mas são capazes de ensinar a gramática do amor em todas as línguas que existem no mundo. Encontrei pessoas tão meigas e generosas que me trouxeram a certeza de que nunca estarei só, pessoas com olhar de escuta. Vocês (essas pessoas) pespontaram os meus contornos, o que me fez apaixonar novamente.... Nessa costura despretensiosa nossa, mostraram a mim o quão são múltiplos e também, únicos.

  Não conseguirei silenciar alguns dizeres nesse fluxo de nossas vidas, e, relembrando o que sempre digo no início do semestre de vocês:
  “Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam. Verdade maior. ” (João Guimarães Rosa – Grande Sertão: veredas). Lembrem-se que as metamorfoses são necessárias para evoluirmos, mas não se esqueçam também que estarei sempre perto.

  As dobras do tempo darão um jeito de nos aproximar e nas pequenas brechas, onde os sentidos executam significações, ainda haverá muita ausência, muita falta. Talvez seja possível, se houver a mesma “magia” e “maestria” para funcionar o “tear”, recuperar o que não foi entrelaçado nessa nossa travessia, que ao meu ver, continuará.

E, eis o texto!

Autoria:
Profª Me. Alessandra Adorni
Docente Fatec Sertãozinho